sábado, 10 de março de 2018

ESVAINDO...



Não fechou as mãos,
nem mesmo segurou firme.
Frouxos dedos e sentimentos.
Portas e janelas abertas
a falar dos ventos...
O mesmo que trouxe
e carregou no redemoinho.
O mesmo que desfez ninhos, 
empurrou passarinho,
esculpiu rochas junto com a chuva,
derrubou cachos de uvas 
e polinizou as flores.
Foi o vento,
o vento e seu movimento
que me arrancou das tuas mãos.

(Taciana Valença)






















quinta-feira, 8 de março de 2018

RECADO


E pensar que ainda não temos muito a comemorar, apenas a seguir e continuar na luta.
Será que, um dia, após tantos debates, tanta "evolução", a mulher conseguirá acabar com o preconceito, a desvalorização, a violência, o abuso sexual, a jornada interminável de responsabilidades sem o devido reconhecimento?
Onde estão os filhos paridos? Por que carregar o feminino como sub se em um ventre foi gerado, desenvolvido e, pelo mais sagrado dos atos, parido? O que é que há que no lugar de um endeusamento há a violência, o preconceito, o descaso pelo trabalho excessivo e tantas outras formas de desvalorização? O que é que há nesse mundo que algumas coisas não mudam? Por que a luta dobrada, a necessidade de uma rebeldia para se impor uma voz que naturalmente poderia ser ouvida e respeitada? Por que as mãos em sinal de pare quando poderiam estar unidas usando forças que se completam? Até quando?
Março, apenas um mês para lembrar que muita coisa ainda continua igual, talvez algumas piores. Mas para lembrar, também, que não desistiremos de lutar contra os que nos desvalorizam e oprimem. Somos sensíveis, fortes, objetivas e sonhadoras. Aliamos a luta a um sonho, esteja ele onde estiver, seja qual for a estratosfera. Enquanto houver discriminação, feminicídios, desvalorização, abuso e tantas outras formas de preconceito, estaremos lutando e atentas. O nosso forte é sentir, mas com os pés bem fincados no chão. Confiamos desconfiando, porque assim nos fizeram através do tempo. Somos as ditas rainhas do lar, mas escravas de uma sociedade machista e hipócrita. Mas enquanto houver vida estaremos atentas, umas às outras, lutando por um espaço que nos caberia sem lutas, mas o mundo é isso, feito de guerras, lutas e guerrilhas. Mês de março, dia 8 de março. Apenas um mês e um dia de alerta geral, mas estamos em vigília uma vida inteira, e isso é exaustivo e seria desnecessário, caso o ser humano fosse realmente humano e desenvolvido espiritualmente. Mas fica aqui um recado:
A GENTE NÃO CANSA!
(Taciana Valença)

quinta-feira, 1 de março de 2018

ENTRE UVAS E TAÇAS





Entrar em águas turvas,
pisotear no lagar as uvas,
enquanto o mosto fermenta.

Pensar sabor em ponta de língua,
para que nada morra à míngua
no solo de todo querer.
Em maceração curta,
que o vinho se faça,
da cor, sabor, fermento, das cascas...
Servindo enfim aos prazeres das taças.
(Taciana Valença)

SIMPLES ASSIM


          Apressada e já com a chave na porta olhou o chinelo virado. Voltou e desvirou. Vez por outra batia uma crendice. Lembrou: se deixar o chinelo virado a mãe morre! Um gesto poderia salvar a grande mulher da vida dela. Voltou e desvirou. Olhou para as plantas e lembrou não ter regado. Já com a porta aberta novamente voltou. Regou todas elas. Resolveu até cantarolar, menosprezando a pressa que insistia em puxar pelos braços. Você não me dá ordem, pensou.
          Certas coisas com a idade vão virando toques e sem querer vão tomando teu tempo, dando as coordenadas como se não dominasse mais os próprios quereres. Obedecer aos toques ou à pressa? Uma puxava para dentro, a outra para fora. E entre as duas quem era ela enfim? Pra lá e pra cá sob o comando de tudo, exceto dela própria.
          Compromisso do lado de fora. Teria que ir! Teria? Queria? Batendo a porta, deixou-se cair no sofá. Olhou a garrafa de vinho ainda fechada. Tirou os sapatos, largou a bolsa ao lado e levantou já descalça. Colocou a bebida na geladeira. Foi só o tempo de tirar a roupa e com um bom banho deixar a cara lavada novamente.
          Abriu o vinho. Agora é entre nós! Dane-se o compromisso, tudo pode esperar, afinal. Era tão simples o que realmente queria naquela tarde: seguir a pulsação do seu coração, deixar-se largar em si mesma. Simples assim.

(Taciana Valença)


domingo, 14 de janeiro de 2018

Ignoto


Sombra desconhecida que ronda.
Bandolim ecoando ao longe,
como seresta que caminha 
em estrada de barro.

Bocejo andando à toa pela casa.
Barulhos e sussurros já tão conhecidos,
sobreaviso.
Chuva no barro descampado.
Mar que jaz morto,
nem mesmo ondas a distrair,
nem mais suspense num porvir.
Sem dolência ou desgosto. Ignoto.
(Taciana Valença)

sábado, 13 de janeiro de 2018

EM NOME DE UMA LEVEZA




Caso a leveza permita,
salte em solo de cristal,
releve o tempo e as mentiras,
tranque em cofre seguro toda a ira.

Caso permita tal leveza,
ande sobre as águas do Capibaribe,
fale de amor e das afiadas dores
ao pé d'ouvido do maior tigre.

E então permita-se flutuar,
acima do mal que a nada convém,
olhando de cima o que se arrasta
em falso nome do bem.

Se puder ir além abra a asas,
mesmo que seja a da imaginação,
voe para cima das nuvens mais largas,
repousando em travesseiros de algodão.

(Taciana Valença)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

MUNDO HERMÉTICO



Então aquela coisa clariciana volta e invade,

novo caos na pseuda ordem.
Portas abertas ao vazio.
A falta que faz a mochila nas costas,
a buscar respostas nesse caminho sem fim.
Ceder às ordens rodando em círculos,
olhos vendados a um mundo vendido.
O frio na barriga, a dormência, 
resposta a uma demência generalizada,
aos ritos proféticos de um mundo hermético,
num disparo sem volta.

Taciana Valença

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Das cores e janelas


Verdes, vermelhas,
amarelas, azuis.
Simples assim,
coloridas como a vida.
Fascinam os olhos, 
enchem de emoção.
Pulsa o sangue
em vermelho coração. 
Vai da lua,
vai do bicho que der,
de qualquer jeito,
d'um jeito qualquer.
Fica o atiço, o rebuliço,
o olhar lisonjeiro.
Vai de quem está na janela,
ou de quem chega primeiro.
Vai do gosto, vai do cheiro.
Vou contar até três,
ficar olhando da sacada,
tomar sorvete de creme
na calçada, só pra ver a rua,
toda minha, toda nua.
As trepadeiras bisbilhoteiras,
torneira aberta, matando a sede
das lavadeiras no gramado.
Pois sou transparente,
olhar de paisagem.
Dias de quietude,
outros de viagens.
E a lua hoje sorriu para mim,
no primeiro dia do ano,
e isso será bom,
salvo ledo engano.
Vou tomar cuidado,
não sair em dias nublados,
nem passar debaixo de escadas,
ter fé na única verdade,
essa sem cor,
livre, mas sincera,
que de vez em quando amarela,
mas é completamente incolor.

(Taciana Valença)


sábado, 30 de dezembro de 2017

VIRADA DO ANO





A barra do vestido indiano que recebera na véspera estava toda molhada. Na verdade ele deveria ter suspeitado que isso iria acontecer, mas achou aquele longuinho amassado de alças a sua cara.

Olhava de longe enquanto ela brincava com as ondas que lambiam seus pés. Com um sorriso largo correu para seus braços, rindo da bermuda branca dobrada sobre o joelho.

Carinhosamente a colocou no colo, deitando-a sobre a areia. A praia estava praticamente deserta, a festa de final de ano na casa do melhor amigo estava perfeita. Casa de praia longe da cidade, só amigos íntimos e a mulher da sua vida. O que mais poderia querer?

Os beijos longos, o vento, as risadas e uma paradinha para conversa séria: o futuro deles, juntos, e o mais breve possível. Não aguentaria viver assim por mais tempo.

Os olhos lacrimejavam quando uma mão o tocou nos ombros. Era a esposa trazendo-o de volta.
- O que houve?

- Nada, deve ser a época, sempre me emociona.

Ela sabia disso. Desde que casara que a noite de Reveillon era assim. Ele um pouco ausente, parecendo longe. No fundo ela sabia o porquê.

Eram noites tristes, marcadas por uma dor que nunca passou, o adeus da mulher que mais amou na vida e junto com ela o futuro perfeito, os sonhos e o lar que planejaram e no qual jamais puseram os pés.

(Taciana Valença)


## 2018 ##



Mantra para 2018:

Menos poesia e mais realidade,
menos romantismo,
menos sonhos,
mais objetividade.

Menos correntes,
mais liberdade!

Taciana Valença

domingo, 10 de dezembro de 2017

XEQUE-MATE



Tarde de chá,
mate ou morra.
Fim da masmorra.
Pôr em xeque.
Fuja, cubra,
não ultrapasse, capture.
Coroa imponente, meu rei,
mas sou rainha,
dona do movimento.
Livre-se do ataque,
sessenta e quatro casas
e meu nascimento,
tenho tempo.
Sem afogamento nem empate.
Xeque-mate!


EU MORO NUM VERSO (TACIANA VALENÇA)