segunda-feira, 18 de maio de 2020

Apenas eu






Mudei teu nome,

sobrenome...

A imagem,
antes tão nítida,

embaçou, 
desfocou,

e, enfim, se desfez.

Não mais certezas,
nem mesmo talvez.

E de tudo que se deu,
sem maiores surpresas,
restou apenas eu.

Taciana Valença.

domingo, 10 de maio de 2020

IMAGEM




Há dias em que as manhãs
parecem mais claras.
Ruga na testa,
raio X da alma.
Sabe aquela coisa que desassossega?
Desacalma?

Espelho imposto.
Mão invisível
a te virar o rosto,
para que encare o aqui.

Imagem nítida.
Nada de tosco ou fosco,
cobrando, autoritária,
os dias de posto.


Taciana Valença

Foto: Felipe Abreu

sábado, 25 de abril de 2020

Vida, essa farsante









Espreita, discreta.
Pernas cruzadas,
acomodada na cadeira.

Olhar soturno,
observando o rebuliço.
Recatada, invulgar perceber.

Vê desfilar diante de si
todo infortúnio e infâmia
de uma farsante vida.

Episódios em fascículos,
que nem mesmo merecem
encadernação.

É preciso um toque feérico
para que tudo se suporte,
e a felicidade , enfim, aporte.

Na fealdade do que observa,
drena o que há de fétido,
dopa-se, doses diárias.

Colírio alucinógeno
forçando brilho nos olhos, 
e na passarela se vejam borboletas
onde ratos desfilam farsas e ódio.

Taciana Valença

ECO DISTANTE




Bravo silêncio
que a garganta me corta
ao surdo bater da porta

num eco distante
ao me trazer de volta
sopro de instante
ao cais que me aporta.

Taciana Valença

(18 de maio de 2012)

terça-feira, 21 de abril de 2020

FORA DO CALENDÁRIO


Cuspi o poema amargo, mentiroso, desequilibrado.
Folha solta.
Pobre,
raso,
a se debater sem foco ou oxigênio.

Imperfeito, mutilado,
revolvendo-se em pesadelos.
Céu escurecido,
ausente desvelo.

Sonhos rasgados, muda voz.
Nada expressa, nada expressou.
Nem lágrima
nem dissabor.

Tonto, sem sentido ou libido.
Versos sem tesão, coração,
água ou pão.

Piso de cascalho donde a vista não compensa caminhada. Não há nada.
Poema chulo, perdido no calendário.

Modos presos,
teia mediocridade.
Garganta arranhada,
garras covardes.

Num escarro
volte ao chão!
Não há nem mesmo peito
onde uma lança se crave.
Sem salvação.


Taciana Valença
Foto: Taciana Valença

MUNDO MUDANDO

Não mais a voz, mas as vozes.
Não mais a vez, mas às vezes.
Mundo mundano, mundo mudo.
Mundo mudando.

(Taciana Valença)

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DELICADEZA



Tempos mel,
segredos abelhas,
zumbir constante.
Ludibriados direitos à inocência.
Comia ternura, adivinhava abraços.
Pitangas doces vermelhas em explosões inesperadas.
Sombra em água perfumada.
Frágil alma dentro das saias, arrepiando-se em sintomas do coração.
Furtivo tempo d'uma ilusão.
(Taciana Valença)

domingo, 1 de março de 2020

VAGANDO NO VAZIO




Não me obrigo a sorrir
por me cobrarem felicidade.
Prefiro lábios firmes, mesmo que tristes,
a sorrisos largos e vagos de vaidades…

Segue canção alternando dias,
muitas vezes a estação não escolho,
dias sem luz, noites sombrias,
em portas trancadas por ferrolho.

E se a alegria me cabe, sem mais,
assim, por um segundo que seja,
sem que pareçam tão formais,
sorrio e brindo feito princesa.

É que a vida resvala
nas mãos de um tempo escorregadio,
nos trancando na senzala
do imenso abismo do vazio.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

FALO OU NÃO?






Falo ou não?

Engulo o choro?

Silencio e calo?

Quem fala é o falo.


Bata! Revide!

Senão te bato!


Onde guardo minha fragilidade, 

meus medos, sem parecer covarde?


Quero gritar para o mundo,

mas calo, amontoando medos

e cobranças onde não falo.


Nos meus cuidados

esqueceram de mim,

e o calo dói em meu caminhar...


O que não falo 

quer apenas amar.


Não me cobrem tanto,

deixem que flua meu lado manso...


Não me elejam

para o que não fui eleito.



Que corram as águas em meu rio,

meu próprio leito...


Cortaram meu leite e deleite

tão cedo exigiram valentia,
vida doentia.


Deixem, enfim,

que amadureça o fruto em mim.


Não importando que esteja tarde,

pois meu corpo pede, a alma arde.


O que falo

não é do macho provedor,

mas do que chora e sente dor.


Falar?

Não falo,

engulo o choro, me calo,

pois assim me ensinaram.


Sua saia me faz sombra

sou bomba prestes a detonar.


Filho, que tu sintas o que não senti.

Que o afeto quebre o vidro do parir.



(Taciana Valença)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

VOCÊ



Eram todos tão conhecidos quanto sem graça quando você chegou. Nem esperava por aquele sorriso, mas retribuí, especialmente com o coração. As tintas haviam chegado, enfim, para que eu pudesse pintar a aquarela da vida. A comida não tinha gosto. Deixava metade no prato para sair. E o mundo se fez mais feliz. A rua sorria para mim.

Estávamos juntos, sempre, desde o primeiro olhar.

 Trinta e um alerta! Nos escondíamos no beco, rindo, acocorados. Você colocava a mão na minha boca para que eu não risse tão alto! Aí que dava vontade de rir mesmo. Jogos de queimado, sempre no mesmo lado, protegendo um ao outro. Cuidado!

Amarelinha... você pensa que eu não via quando eu abaixava para pegar a pedra e você, de soslaio, olhava minha calcinha. Bôbo...

Brincadeiras na piscina. Olha o tubarão!

Íamos crescendo com as brincadeiras. Pêra, uva maçã, jogo da verdade. Coração amadurecendo, batendo forte de emoção. Sim ou não? Verdade ou mentira?

Início das festinhas. A primeira música lenta. Sem jeito...

Enquanto os seios se formavam sua voz desafinava, tentando engrossar.

Novas descobertas em nosso mundo. Primeiro beijo...

Ficávamos na beira do mar, depois do frescobol, sentados na areia, olhando o horizonte. Corríamos, de repente, numa aposta. Eu quase sempre chegava primeiro. Mas você jogava melhor do que eu. Uma vez deixei você vencer, só para te ver feliz. Você sacou, eu sei.

Eu clareando os pelos dos braços, você reclamando do cheiro. Eu bronzeada, você, vermelho.
O mar.... Íamos longe, nadando. Eu sempre exagerada. Voltei apavorada naquele dia quando o vi parar. Estava com câimbra. Nossa, morri de medo, achei que ia se afogar. Driblando o medo, chamei para pegar tatuís na areia. Esquecíamos das horas, levando bronca quando chegava para almoçar às quatro da tarde.

Sua primeira prancha, meu orgulho! Sentada, virava o rosto quando caía. Nossa, foram muitos caldos! Mas você ficou bom. Sim, ficou o melhor. Então sempre que chegava na praia procurava entre os surfistas sua prancha amarela. Lá estava você me acenando...

Sinto saudades, você teve que partir. Sem celular nem internet, nossa última comunicação foi a despedida com lágrimas, sem saber quando nem onde nos veríamos novamente.

Foi triste. Virei atleta para contar as braçadas e não pensar em você, parte do meu caminho que jamais vou esquecer.

(Taciana Valença)


EU MORO NUM VERSO (TACIANA VALENÇA)