Aparo a destreza do tempo,
cortando-lhe os galhos para que se abram em verdes, fartos e novos caminhos. Viver exige a paciência e sensibilidade de um jardineiro.
cortando-lhe os galhos para que se abram em verdes, fartos e novos caminhos. Viver exige a paciência e sensibilidade de um jardineiro.
Raras contemplações.
Tênue linha a separar
brisa de vendaval.
Antes distante céu.
Sim, aquele azul
onde não se pisa,
que não se alcança,
mas de admirável brilho.
Ousadia guardada
sob véus dilemas.
Melhor não saber,
não entrar, não bater.
Mas eis que chega,
vozes e linhas que se doam
ao encantamento,
já não há vento, só vendaval.
Algo não se estabelece,
apenas cresce,
sem nem mesmo ter
onde se segurar.
Deixa-se ir, ornada
em canções perfumadas,
onde a alma se enverga
a beijar outra alma.
Sigo a vida
displicente
e ela me segue,
sigo o insta
gravemente
e a vida segue
com rompantes
meus instantes.
Sigo o dia, sigo a lua,
que flutua,
que me encolhe
e me acolhe
quando cresce,
mas me imponho,
sigo um sonho
que padece,
aquieto-me numa prece.
Sigo o único poeta
que das letras
faz a festa
e me afeta,
sou Sininho,
sou caminho
sem as setas.
Ronaldo Rhusso / Taciana Valença
Foto: Taciana Valença
Necessito lançar meus versos
em água corrente,
dessas águas de se carregar.
O vento se encarregará?...
Ah!..., bom seria deitar-me
ao colo de Deméter,
esperar então, a colheita da vida.
Ouvir a voz penetrante de Perséfone,
comer a romã das mãos submundas.
Entregar minhas necessidades para Anamke.
E que se faça sua vontade.
Em seguida ofertaria
à intelectualidade de Atena.
Acertaria as arestas, faria jus,
já que me dizem poeta.
E Artemis, me ensinaria a guerrear, inteligentemente;
sem antes filosofar espiritualmente com Héstia...
graduando o fogo que arde nos mares de mim.
Sinto o olhar sedutor de Afrodite,
Onde sucumbo e me amparo.
O vento traz um solfejar feminino:
uma canção atraente e sedutora;
talvez seja...Sim!...
Canto da Iara, prestes a afogar-me.
Não!... Não devo ouvir!...
Em qual latitude e longitude ímpar,
situa-se esta ilha que agora me encontro?
Oceano? Qual?
Perdi todas as coordenadas
neste maremoto de emoções.
Minha mente está à deriva...
Que amanhã, assim como Rá,
seja expulsa pela vulva de Nut.
Adentrarei todas as noites
em sua boca entreaberta.
E renascerei, todos os dias
que ainda me restam.
Taciana Valença
Ao varrer a última folha do quintal,
reminiscências ainda burilavam a mente,
já havia passado o ano do gato...
A despeito das carícias dos fragmentos bons
Quis pular aquele ano…
“Year of the cat”, e nem sabia mais
dos caminhos, da direção.
Porque olvidara que nenhuma direção havia...
Não há o que esperar, e como diz a canção, passagem perdida.
A condução sequer existia!
Os versos martelam enquanto
num pulo distraído se volta
ao fim do milk shake,
aos olhos brilhantes que mudam de cor…
Retornam remanescentes convicções e planos!
A folha varrida volta
amarelada duma saudade,
dessas com cheiro de perfume
e nicotina.
Que fica do que não ficou...
Era pra ser só um beijo de menina,
tão inocente quanto pular um muro
em busca de uma paixão…
Porém a culpa tumultua
e atua forte a consciência.
O muro parece mais alto,
a razão acusa e grita: Não!
“Year of the cat”… um salto de ilusão.
Ronaldo Rhusso / Taciana Valença
Seria vexame asfixiar,
debater enquanto sufôco,
se ver escurecer em prece.
Quem merece?
Conhaque, queimando entranhas,
amanhecer no labirinto da vergonha
sob o peso de uma fronha!
Era encontro de hora marcada,
de pontualidade medonha.
Não, não se mata assim -
não o que em si vive;
um desrespeito com a cegonha.
Deixe o cão enraivecido ladrar
lá do alto dos seus infernos!
As mãos levadas aos ouvidos
já não querem mais ouvir
palavras que escorrem da boca
sem freios, amargando na sala vazia
a frieza doce dos lábios descoloridos.
Mas sim, eu duvido
que sufoque até o grito!
Corre a buscar outro gole -
anestesiando a alma que sobe
pelas paredes e adormece no teto
gemendo pelo ausente,
buscando a São Clemente,
que decifre este mistério
pelas sombras deste labirinto.
No mais que se finde o pesadelo,
o ar que falta sob o travesseiro,
o veneno, que pela dor deixou-se matar
e que por isso alguém viveu…
a manhã enfim trará o milagre
que se desprendeu das entranhas
amanhecendo em flores verdades.
Taciana Valença
Oh! Lida tosca, a de gente infeliz
que perde as horas dos dias em frestas
da própria vida ignora as arestas...
Seres sombrios que, sem luz, são tão gris...
Tem própria vida, mas não a que quis
e, na tristeza de ser, perde festas
com as manias ruins, indigestas
Cospem friezas nas falas, gentis?
Vivem das sobras e risos de tolos
sempre querendo a quem nunca lhes quer;
surfam na vida de um outro qualquer...
Sobram telhados de vidro e dolo
num existir mais mofado que bolo
ruim, esquecido e ninguém mais o quer...