quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Tempo


 Aparo a destreza do tempo, 

cortando-lhe os galhos para que se abram em verdes, fartos  e novos caminhos. Viver exige a paciência e sensibilidade de um jardineiro.

Vendaval


 Vendaval


Raras contemplações.

Tênue linha a separar

brisa de vendaval.

Antes distante céu.


Sim, aquele azul 

onde não se pisa,

que não se alcança,

mas de admirável brilho.


Ousadia guardada 

sob véus dilemas.

Melhor não saber,

não entrar, não bater.


Mas eis que chega,

vozes e linhas que se doam

ao encantamento,

já não há vento, só vendaval.


Algo não se estabelece,

apenas cresce,

sem nem mesmo ter

onde se segurar.


Deixa-se ir, ornada

em canções perfumadas,

onde a alma se enverga

a beijar outra alma.

Só rascunho…

 


Sigo a vida

displicente

e ela me segue,

sigo o insta

gravemente

e a vida segue

com rompantes

meus instantes.


Sigo o dia, sigo a lua,

que flutua,

que me encolhe

e me acolhe

quando cresce,

mas me imponho,

sigo um sonho

que padece,

aquieto-me numa prece.


Sigo o único poeta 

que das letras 

faz a festa

e me afeta,

sou Sininho,

sou caminho 

sem as setas.


Ronaldo Rhusso / Taciana Valença 


Foto: Taciana Valença


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

PERDIDA

  



Necessito lançar meus versos 

em água corrente,

dessas águas de se carregar.

O vento se encarregará?...


Ah!..., bom seria deitar-me 

ao colo de Deméter,

esperar então, a colheita da vida.


Ouvir a voz penetrante de Perséfone,

comer a romã das mãos submundas.

Entregar  minhas necessidades para Anamke.


E que se faça sua vontade.

Em seguida ofertaria 

à intelectualidade de Atena.


Acertaria as arestas, faria jus, 

já que me dizem  poeta.


E Artemis, me ensinaria a guerrear, inteligentemente;

sem antes filosofar espiritualmente com Héstia...

graduando o fogo que arde nos mares de mim.


Sinto o olhar sedutor de Afrodite,

Onde sucumbo e me amparo.


O vento traz um solfejar feminino:

uma canção atraente e sedutora;

talvez seja...Sim!...


Canto da Iara, prestes a afogar-me.

Não!... Não devo ouvir!...


Em qual latitude e longitude ímpar,

situa-se esta ilha que agora me encontro?

Oceano? Qual?


Perdi todas as coordenadas 

neste maremoto de emoções.

Minha mente está à deriva...


Que amanhã, assim como Rá,

seja expulsa pela vulva de Nut.


Adentrarei todas as noites 

em sua boca entreaberta.


E renascerei,  todos os dias

que ainda me restam.


Taciana Valença


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Quitute



 

Year of the cat

Monday, January 17, 2022

Year of the cat

 Ao varrer a última folha do quintal, 

reminiscências ainda burilavam a mente, 

já havia passado o ano do gato...

A despeito das carícias dos fragmentos bons

Quis pular aquele ano…

“Year of the cat”, e nem sabia mais 

dos caminhos, da direção.

Porque olvidara que nenhuma direção havia...

Não há o que esperar, e como diz a canção, passagem perdida.

A condução sequer existia!

Os versos martelam enquanto 

num pulo distraído se volta

ao fim do milk shake, 

aos olhos brilhantes que mudam de cor…

Retornam remanescentes convicções e planos! 

A folha varrida volta 

amarelada duma saudade,

dessas com cheiro de perfume 

e nicotina.

Que fica do que não ficou...

Era pra ser só um beijo de menina,

tão inocente quanto pular um muro

em busca de uma paixão…

Porém a culpa tumultua

e atua forte a consciência.

O muro parece mais alto,

a razão acusa e grita: Não!

“Year of the cat”… um salto de ilusão.


Ronaldo Rhusso / Taciana Valença



Sufôco




Seria vexame asfixiar,

debater enquanto sufôco,

se ver escurecer em prece.

Quem merece?

Conhaque, queimando entranhas,

amanhecer no labirinto da vergonha

sob o peso de uma fronha!


Era encontro de hora marcada,

de pontualidade medonha.

Não, não se mata assim -

não o que em si vive;

um desrespeito com a cegonha.

Deixe o cão enraivecido ladrar

lá do alto dos seus infernos!


As mãos levadas aos ouvidos

já não querem mais ouvir

palavras que escorrem da boca

sem freios, amargando na sala vazia

a frieza doce dos lábios descoloridos.

Mas sim, eu duvido

que sufoque até o grito!


Corre a buscar outro gole -

anestesiando a alma que sobe

pelas paredes e adormece no teto

gemendo pelo ausente,

buscando a São Clemente,

que decifre este mistério 

pelas sombras deste labirinto.


No mais que se finde o pesadelo,

o ar que falta sob o travesseiro,

o veneno, que pela dor deixou-se matar

e que por isso alguém viveu…

a manhã enfim trará o milagre

que se desprendeu das entranhas

amanhecendo em flores verdades.


Taciana Valença

 

sábado, 8 de janeiro de 2022

Vigias do alheio ( Ronaldo Rhusso/Taciana Valença)

Vigias do alheio

Oh! Lida tosca, a de gente infeliz

que perde as horas dos dias em frestas

da própria vida ignora as arestas...

Seres sombrios que, sem luz, são tão gris...


Tem própria vida, mas não a que quis

e, na tristeza de ser, perde festas

com as manias ruins, indigestas

Cospem friezas nas falas, gentis?


Vivem das sobras e risos de tolos

sempre querendo a quem nunca lhes quer;

surfam na vida de um outro qualquer...


Sobram  telhados de vidro e dolo

num existir mais mofado que bolo

ruim, esquecido e ninguém mais o quer...




Amigos (Ronaldo Rhusso/TacianaValença)


 

EU MORO NUM VERSO (TACIANA VALENÇA)